Vamos conversar um pouco sobre a negativa, que muitas vezes é difícil de lidar. As crianças modernas são excessivamente protegidas, frequentemente evitando a experiência de ouvir um "não", ser contrariadas ou enfrentar frustrações diárias. Apesar de parecer que isso é algo positivo, é bastante prejudicial. Existem várias correntes de trabalho e pesquisa na psicologia e na neuropsicologia que abordam esses temas de formas diferentes. Porém, aqui, nosso foco serão as neurociências, que estudam como o cérebro funciona e se adapta às situações.
É claro que as crianças precisam passar por frustrações. Elas precisam ouvir "não" e experimentar o fracasso, pois isso as prepara para um mundo que, definitivamente, não é composto apenas por sucessos. Todos nós sabemos que as crianças passam por várias fases de desenvolvimento e aprendizado, moldando suas personalidades e o que serão quando crescerem. O cérebro não nasce pronto; ele se desenvolve ao longo da vida, com seu amadurecimento sendo concluído até os 30 e poucos anos. Durante esse processo, há fatores fundamentais para a formação da personalidade e do comportamento dos indivíduos na vida adulta.
Vemos frequentemente pais superprotetores que evitam dizer "não" aos filhos, impedindo-os de lidar com frustrações. É comum vermos pais que vão às escolas para reclamar quando os filhos tiram notas baixas. Contudo, se a nota está baixa, pode ser que isso ocorra porque a criança não se esforçou tanto quanto necessário. A culpa é sempre atribuída a terceiros, como a escola ou os professores, para evitar que os filhos vivenciem a frustração. É verdade que existem casos diferentes, como indivíduos com dificuldades de aprendizado ou transtornos, que necessitam de cuidados especiais, mas o transtorno de aprendizado não se resume a crianças que tiram notas baixas.
Atualmente, é comum rotular crianças com nomes complexos para descrever dificuldades simples, tudo para evitar que sintam frustração e para mantê-las no centro das atenções. É claro que elas precisam de atenção e acompanhamento, mas isso não deve ser exagerado. Essa superproteção é prejudicial. O cérebro tende a se acomodar a certas situações e, quando um comportamento é repetido constantemente, torna-se um hábito difícil de mudar. Muitas vezes, estamos criando crianças que vivem em uma bolha, que crescem acreditando que não existem frustrações ou tristezas. Quando se tornam adultas e enfrentam as dificuldades da vida, costumam não estar preparadas para lidar com essas situações.
Ao tentarmos proteger as crianças dos problemas na infância, criamos desafios muito maiores na vida adulta, como a incapacidade de lidar com "nãos" e frustrações. Portanto, é fundamental ter cuidado com os eufemismos e com a necessidade de amenizar tudo. Muitos pais percebem a importância de estabelecer limites, mas suavizam suas negativas para evitar causar desconforto nos filhos, tornando a rejeição indireta e cheia de explicações ausentes na vida adulta.
O ideal é que as crianças aprendam desde pequenas a entender seus limites, a ouvir "não" e a refletir sobre o que gerou esse "não", para que possam buscar alternativas. Se algo não ocorre como previsto, não é um desastre, apenas indica que são necessários ajustes. Portanto, o aprendizado sobre como lidar com situações desafiadoras deve começar na infância. Muitas pessoas acreditam que isso é um aprendizado que ocorre apenas na adolescência ou na vida adulta, mas ele deve começar bem antes.
Percebo que em alguns países as pessoas lidam com o "não" mais facilmente. No Brasil, expressar um "não" é considerado rude ou desrespeitoso, como se essa palavra não fosse comum em nossa linguagem. Por exemplo, se você foi convidado para uma festa e responde "não", pode ser visto como indelicado. As pessoas frequentemente inventam desculpas para justificar o "não", como compromissos inventados ou problemas pessoais, o que acaba afastando a sinceridade e o respeito pelas opiniões alheias.
Esse excesso de polidez, que muitas vezes é confundido com o "politicamente correto", acaba gerando crianças que, mais tarde, se sentirão frustradas. É importante que haja um convívio saudável onde o "não" seja visto como parte da comunicação. Em outros lugares, é comum perguntar "vamos sair para almoçar?" e receber a resposta "não", sem que isso signifique desrespeito ou animosidade. Isso deve ser respeitado.
A diferença é que no Brasil o "não" é visto como algo perigoso ou nocivo, mas essa palavra faz parte do nosso vocabulário e expressa desejos ou limitações. Acreditar que as crianças ficarão traumatizadas ao ouvir "não" é infundado. Elas podem até se sentir desafiadas a tentar novamente, motivadas pela negativa. A concepção de que o termo "não" traumatiza os pequenos não se sustenta, pois o vocábulo por si só não provoca traumas; tudo depende do contexto no qual é aplicado.
Se você trata uma criança de forma desrespeitosa, ignorando suas qualidades e ressaltando apenas os erros, pode, sim, criar um indivíduo com problemas. Mas se essa criança convive com o "não" de forma natural e respeitosa, ela não será traumatizada. Desde cedo, deve aprender a lidar com essa negação como parte de sua vida cotidiana.
É essencial destacar o seguinte: não adianta querer impor limites ou permitir que a criança enfrente frustrações se, a cada vez que há um problema, você a socorre. Se você não concluir as situações, a educação ou o comportamento que tenta instaurar não será efetivo.
Se você decidir impor um limite, diga "não" e mantenha essa posição. Estabeleça essa fronteira. Entretanto, se o olhar desolado ou cabisbaixo da criança faz você transformar o "não" em "sim", ou justificar excessivamente a restrição, você gera confusão. Acaba não educando a criança para entender e coexistir com essas limitações.
É importante saber claramente o que se quer e cumprir essa decisão. Se a intenção é impor limites e fazê-los ser respeitados, as regras não podem ser alteradas em nenhuma circunstância.
Costumo afirmar que, na criação de uma criança, você não pode perder a autoridade. Não se deve querer impor um limite e ceder a todo momento. Por isso, é fundamental cumprir sempre o que se promete. Se você não puder cumprir, não faça promessas.
Por exemplo, se você promete um passeio, não importa se está chovendo ou se há uma tempestade; se você acha que não será possível realizá-lo, não prometa. O mesmo vale para pais que frequentemente prometem castigos, como retirar o celular ou aplicar outras restrições, mas nunca cumprem. Isso resulta em advertências sem substância, e a criança aprende a desconsiderar o que os pais dizem e tentam estabelecer como barreiras. Quando se perde a noção de que você cumpre o que fala, a criança começa a ganhar espaço, pois sabe que você não terá coragem de restabelecer o limite que deixou de impor.
É importante observar essa regra: se você não pode ou não quer cumprir algo, não faça promessas. Afirmar que a criança não receberá uma lembrança de Natal e, posteriormente, fazer o presente surgir é descumprir a palavra — não faça isso. Se sua intenção real não é deixá-la sem o presente, não fale que o fará. Esses hábitos do dia a dia, como a falta de firmeza, resultam em indivíduos que ganham espaço, fazem o que querem e se habituam a ser o centro do mundo. O problema não está apenas na infância, mas também mais tarde, quando a pessoa perceber que não é o centro do universo e terá que enfrentar frustrações e ouvir muitos "nãos" na vida.
Uma coisa é estabelecer limites e dizer "não"; outra é maltratar. A negativa por si só não é um ato de agressão, desde que faça parte do cotidiano da criança e seja abordada com naturalidade e respeito. Assim como dizemos "sim", também devemos dizer "não". É importante notar que, quanto mais tarde ocorrer a mudança nesse hábito de criação, mais complicado será implementá-la. Se você educa uma criança em uma bolha, sem nunca receber um "não", e subitamente, quando ela tem 10 ou 12 anos, decide começar a estabelecer restrições, será difícil. Ela já desenvolveu hábitos e passou por um processo de amadurecimento.
Um indivíduo de 10 anos já amadureceu mais do que uma criança de 3 ou 4 anos. Portanto, impor limites tardiamente pode gerar problemas, já que a criança não está habituada a essa abordagem.
Melhor do que tentar introduzir uma educação diferente em um momento tardio é conviver com frustrações, "nãos" e limites desde cedo. Muitas vezes, observo crianças que visitam parentes e se comportam como se fossem as donas da casa. Elas pulam no sofá, puxam o rabo do cachorro, e o que me surpreende é ver os pais dizendo que é assim mesmo, que a criança é agitada. Não, ela foi criada dessa forma.
É claro que existem exceções, mas muitos problemas se resumem à falta de educação em casa e à ausência de limites. Para justificar essa criação negligente, muitas vezes se inventam transtornos ou se atribui toda a responsabilidade à criança. É importante cuidar para não criar indivíduos problemáticos e buscar soluções para aqueles que de fato têm dificuldades. Devemos, sim, impor limites e ensinar a aceitar o "não", criando crianças saudáveis, que respeitam os outros e o espaço alheio, e que são capazes de ouvir críticas sabendo crescer com isso.
Adriano Freitas
Especialista em Neurociências
(Neuropsicologia Clínica,
Intervenção em Neuropediatria,
Neurociência Clínica,
Neurociência Cognitiva,
Transtornos Neurocognitivos)